Silvio Meira - De onde vem o futuro?

Um dia, Douglas Adams, genial e prematuramente falecido autor de Mochileiro das Galáxias, criou um provérbio sobre as mudanças, principalmente tecnológicas, cada vez mais rápidas no mundo ao nosso redor. A tradução livre do que Adams escreveu é a seguinte: tudo o que já existia no mundo antes de nascermos é absolutamente natural; as novidades que aparecem enquanto somos jovens são uma grande oportunidade e, com alguma sorte, podem até ser uma carreira a seguir; mas tudo que aparece depois dos trinta é anormal, um fim do mundo que conhecemos, até que tenhamos convivido com a coisa por uns dez ou quinze anos, quando começa a parecer normal.

Pois é. Com raras exceções que justificam a regra, somos conservadores e reagimos às mudanças. Só que o mundo está mudando o tempo todo e, nas últimas décadas, numa velocidade muito grande. Pense na internet. Talvez tenha parecido, no começo, um monte de computadores conectados, máquinas de interesse da ciência e negócios, onde nós, usuários, entrávamos para fazer coisas sérias, como transações bancárias e consultas a sistemas de informação do governo. Mas era muito mais, desde o começo. A rede tornou possível o relacionamento direto, entre pessoas, de uma forma livre e criativa, com o lado de cá (nós) definindo e participando da construção dos instrumentos que usamos para, principalmente, interagir com outros (muitos) humanos.

Tudo indica que o mais interessante da rede, para as pessoas, são as outras pessoas, o que elas fazem, têm a dizer e mostrar. Não é à toa que as redes sociais são o maior sucesso de público da internet. Dizer que a rede é um conector multidirecional de interesses pessoais é um lugar comum. Qualquer um que nasceu nos últimos trinta anos sabe de cor, salteado e na própria pele, teclado, videocam, no seu Orkut e nos textos, fotos e vídeos que publica nos logs da vida. Na verdade, há muita gente com mais de trinta que também viu o galo cantar, na rede, e sabe onde e o que fazer com isso. Mas muitos outros estão perdendo o bonde, e não só: seus negócios estão ficando sem trilhos.

Eu e você, leitor (e comentarista, pois isso aqui é multidirecional) poderíamos achar que é isso mesmo, que azar de quem não está entendendo nada. Ainda mais, talvez fosse “bem feito”: quem mandou não prestar atenção no futuro? Ocorre que não se chega no futuro “prestando atenção” nele. Pense no tempo como uma escada: normalmente, achamos que o presente é uma continuação de uma seqüência de batentes que vem do passado.

Agora, olhe pro futuro. Seria por acaso uma continuação da escadaria onde estamos agora, com os mesmos degraus, inclinação e tudo mais? Não. O futuro é como uma escada que vem do próprio futuro e não se encontra com os batentes que estamos subindo agora. Temos que fazer um grande esforço e correr o risco de saltar da nossa calma e tranqüila escadaria (que acaba no presente) e construir, na insegurança e nos perigos do vazio entre o presente e o futuro, os próximos passos. Numa escada virtual. Que se torna concreta se muita gente pular pra lá... conosco.

Danado talvez seja entender o que este texto está fazendo aqui, num lugar onde supostamente se fala de tecnologia. Pois é. Ando surpreso com a quantidade de gente que acha e me diz que agora o futuro chegou de vez. Que a internet “é isso aí”. Que TV digital é “só” uma nova forma de fazer a televisão que “já” está aí. Isso quando pesquisas americanas indicam que dois terços dos espectadores quer ser “usuário” da TV... quer suas telas navegando na rede, com a novela dentro do browser...

Pra quem acha que a vida digital que está aí chegou para ficar, talvez seja bom lembrar que não estamos nem um pouco perto do fim do caminho. Aliás, não estamos nem no fim do começo, talvez estejamos no começo do começo. E do começo de uma daquelas escadarias pras quais acabamos de saltar, que por sinal não tem muitos batentes. Outros saltos serão necessários, e breve.

Falando em saltos, um daqueles fins de mundo como o conhecemos vai acontecer no dia dois de dezembro, com as primeiras transmissões de TV digital. No começo, não vai parecer nada de novo, só “mais uma forma” de fazer e ver TV. Mas TV digital não é qualidade de imagem, é interação com o usuário e entre os usuários. Quem entender pode até fazer uma carreira nisso. Ou salvar, recriando, seu negócio.

Fonte: G1

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